terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O Inverno Do Mundo

Ultimamente, é habitual as editoras adoptarem a estratégia de lançar um novo autor de fantasia publicitando-o como o próximo Tolkien, como se houvesse um manual de instruções sobre como construir um épico campeão de vendas. E com demasiada frequência os leitores sentem-se defraudados quando confrontados com obras menores que raramente correspondem ás expectativas criadas. De tanto abusar dessa estratégia de marketing, o efeito "rapaz que grita lobo" acaba por influenciar o público, prejudicando algumas obras dignas de nota que passam despercebidas. Um dos autores que tem sido sistematicamente ignorado pelo mercado editorial português e que facilmente mereceria o título de "herdeiro de Tolkien ", é Michael Scott Rohan.
     Descobri-o há alguns anos, nas prateleiras da secção de fantasia e ficção cientifica da saudosa Livraria Britânica, no Porto. A trilogia Winter of the World (The Anvil of Ice, The Forge in the Forest e The Hammer of the Sun) foi um dos tais livros que chamou por mim e não me decepcionou. Em folego narrativo e na construção de um mundo coerente e credível é um dos poucos autores que se aproximou dos exigentes padrões de Tolkien. Consegue também transmitir a mais elusiva das sensações (sempre o mais difícil em obras desta natureza), o       sentimento de nostalgia que se apodera de nós ao chegar ao fim do livro, como o vislumbre de uma era dourada que passou e jamais voltará,         deixando na memória um anseio inexplicável por algo irrecuperável.
     O toque genial desta reinterpretação de velhos mitos está, na minha opinião, no facto de ele situar a acção no território Norte Americano e depois num Mediterrâneo irreconhecível, há cerca de dez mil anos, em plena idade do gelo. Uma idade do gelo mítica povoada por deuses, monstros e heróis embrenhados numa luta épica pelo destino do mundo. O Gelo é representado como uma entidade presciente cujo propósito é encerrar o globo num Inverno eterno, estéril e perfeito (numa referência ao Ragnarok nórdico e muito antes de George RR Martin ter aproveitado a mesma ideia na sua saga Song of Ice and Fire). Combatendo contra a extinção da vida encontra-se a humanidade, caótica, mutável e imprevisível (com alguma ajuda de Odin). Evidentemente, a principal fonte de inspiração é a mitologia nórdica, nomeadamente a história de     Volund ou Wayland o herói ferreiro que fabrica armas mágicas, casa com uma valquíria, é mutilado por um poderoso rei que o mantém prisioneiro num labirinto obrigado-o a fazer armas para o seu exército, e de onde ele escapa com a ajuda de um par de asas de sua invenção (Dédalo é o seu equivalente meridional).
     Combinando na perfeição o material lendário com a realidade histórica, Rohan aborda as raças tradicionalmente retratadas neste género, tais como anões e elfos, por exemplo, sob uma nova perspectiva: aqui, os anões são subtilmente identificados como os últimos neandertais refugiados no interior das montanhas para escapar das perseguições dos novos homo sapiens, e os elfos são criaturas meio símias, mutantes humanos adaptados à vida nas árvores, uma espécie de elo perdido da evolução. As personagens humanas podem parecer estereótipos, mas neste contexto lendário ganham a dimensão de arquétipos junguianos e é por isso que nos identificamos com elas. A narrativa é fluída, recheada de incidentes, aventura e batalhas, como convém a uma saga.
Todo o livro se lê como uma proto mitologia; os acontecimentos de um passado remoto da humanidade deram origem ao inconsciente colectivo dos povos dos continentes europeu e americano. Provocam no leitor um misto de estranheza e familiaridade que tornam esta história alternativa de velhos mitos extremamente apelativa e empolgante. A mim, pelo menos, que além apaixonada por fantasia também sou entusiasta de mitologia e história.
     
   











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