quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

E no princípio havia Tolkien...

Desde que me lembro, sempre gostei de ler. As minhas recordações mais antigas estão relacionadas com a oferta de livros, muito antes de eu ter aprendido a decifrar o alfabeto, o que só aumentou o meu desejo de aprender a ler. Guardo com carinho a memória de uma coleção de livros com belas ilustrações onde estavam reunidos os tradicionais contos de Grimm, Perrault e Anderson. Se os nossos gostos são definidos pelas influências a que somos expostos na infância, então o meu interesse pela fantasia começou aí. 
    A verdadeira descoberta aconteceu na adolescência, e depois de mergulhar no universo paralelo da fantasia e da ficção científica nunca mais o abandonei. A principal atração residia na capacidade de um livro me transportar para outras realidade que nada tinham a ver com o meu quotidiano. Viajava no espaço e no tempo. Era a maior das liberdades. Continua a ser.
     Ao entrar numa livraria ou numa biblioteca é frequente experimentar a sensação (e não devo ser a única a senti-la) de que um determinado livro chama por mim. Posso nunca ter ouvido falar nele, nem sequer conhecer o autor, e no entanto, uma atração inexplicável puxa-me até à estante onde ele se encontra. É como um íman, exercendo uma força incompreensível sobre a nossa vontade. O reconhecimento é instantâneo. Aquele livro vai preencher um vazio, vai dar resposta a uma necessidade, e a posterior leitura do mesmo só vem confirmar que a minha intuição estava correcta. De certeza que existe uma explicação perfeitamente racional para esse tipo de experiência mas prefiro pensar nela como uma espécie de osmose. O livro está ali à espera, ou melhor, a tecer tranquilamente o seu encanto, chamando o leitor sintonizado com a sua canção inaudível, e quando o contacto acontece é como uma faísca que acende no subconsciente um reconhecimento imediato, a sensação poderosa de que aquele é o tal. 
     Divago porque é difícil explicar o amor à primeira vista a quem nunca o sentiu, mas o cerne da questão é que a primeira vez que me apaixonei por um livro antes de o conhecer foi por "O Senhor dos Anéis" de JRR Tolkien, e depois de o ter conhecido não queria outra coisa. Estranhamente, não me lembro da primeira vez que o li. Devia ter 13 ou 14 anos, altura em que a editora Europa América lançou em Portugal a obra em 3 volumes. Ainda os tenho, as páginas amarelecidas e quase soltas de tantas vezes folheadas, as capas desvanecidas cobertas de remendos de fita cola, ostentando fotos do filme de animação de Ralph Bakshi (1977) do qual, por sinal, não gostei. A recordação da primeira leitura d' O Senhor dos Anéis funde-se com as subsequentes leituras, repetidas todos os Verões, de modo a criar uma memória intemporal.
    Seguiram-se outras obras e outros autores mas o professor Tolkien ocupa um lugar especial e é através dele que eu aconselho os neófitos a fazer a sua iniciação na Fantasia.


  


Quem ainda não estiver familiarizado com as obras completas do professor Tolkien, mesmo depois da maciça exposição mediática que as adaptações cinematográficas dos seus livros mereceram (assunto para outra altura) recomendo sobretudo o "Silmarillion", a "bíblia" da Terra Média. Quem estiver interessado em conhecer melhor o homem e a sua vida e for fluente em inglês, aconselho a leitura da biografia de JRR Tolkien de Humphrey Carpenter (editora Harper Collins), na minha opinião a melhor biografia que já li sobre o professor. Do mesmo autor e da mesma editora, "Inklings" que explora a relação de Tolkien com os colegas autores C. S. Lewis ( criador das Crónicas de Narnia) e Charles Williams. Muito interessante também é a leitura das cartas de Tolkien reunidas num volume editado por Christopher Tolkien e o já citado Humphrey Carpenter (Harper Collins). Dá-nos uma perspectiva mais pessoal do autor e sobre o seu processo de escrita. 

     Isto é, se desejar mesmo aprofundar o tema.


                                                                                       
        


1 comentário:

  1. Cá esta a culpada por colocar o "bichinho" Tolkein que ainda hoje vive no meu organismo. Para ti só tenho uma palavra: Obrigada! Um universo que me acompanhou durante a minha adolescência até aqui e que também maravilha os meus filhos. Uma historia e uma escrita que se move entre gerações tem ser algo de especial. E é!
    (vou ter que assinar cá em baixo pois não vejo outra forma...lol... beijos Armanda)

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