sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Aqui há dragões

Nos mapas antigos, antes das grandes viagens de exploração marítima, havia uma legenda nos espaços em branco que assinalavam os territórios desconhecidos. Dizia: Aqui há dragões.
     Quando, há alguns anos, me deparei com aquela inscrição numa reprodução amarelecida  fiquei imediatamente fisgada.
     Dragões!
     Senti-me imediatamente atraída pela noção romântica evocada por aquela imagem. Houve um tempo em que bastaria embarcar para as margens em branco dos mapas e encontrar-se-iam dragões. Fascinava-me a possibilidade do maravilhoso e não duvidava da existência de dragões, algures no mundo, escondidos em locais secretos, para escapar da perseguição da humanidade intenta no seu extermínio. Em criança, costumava folhear os livros ilustrados sobre animais à procura deles, mas o mais próximo que encontrei de um dragão foram os dinossauros e esses estavam extintos.
     Um dia explicaram-me a verdade. Os dragões eram animais lendários, mitológicos.
     "Mas o que é que isso significa?", perguntei.
     "Significa que nunca existiram."
     "O quê? Nunca?"
     "Nunca. Foram inventados pelos antigos. São apenas histórias."
     Impossível! Que criaturas tão esplêndidas e terríveis nunca tivessem cruzado os céus do globo parecia um colossal erro da criação. Senti-me defraudada com o mundo em geral, particularmente com aqueles antepassados criadores de mitos, pela sua decepção. Porque não deveriam existir as coisas que imaginávamos?
     Era tão fácil evoca-lo, um corpo longo, esguio e sinuoso munido de enormes asas. Podia visualiza-lo na perfeição. Aproximava-se, planando baixo, uma sombra maior do que um jacto comercial que eclipsava o dia. Um único batimento das suas poderosas asas coriáceas, um vuuump como o estalar de um chicote gigantesco, provocava uma rajada seca e ardente como vento do deserto. Parecia maciço, enorme, deveria ser pesado, toneladas de carne, osso e músculo e contudo pairava, leve, gracioso e ágil nas correntes de ar, como se desafiasse as leis da física. Ele próprio, a sua existência, era um desafio ás leis naturais. Era um milagre, algo inclassificável, inexplicável, maravilhoso. Era uma fornalha voadora, uma sombra de calamidade e devastação, a morte sobre asas.
     Destruiu a cidade num ápice. Imensos jactos de chamas tão quentes como o interior de um vulcão jorravam das suas mandíbulas repletas de fileiras de presas afiadas (porque é que o fogo não lhe queimava o interior da garganta e como podiam as suas entranhas produzir semelhantes temperaturas, era o que eu pensava na altura). Corpos a correr em pânico pelas ruas sucumbiam ao seu sopro divino em nuvens de cinza, edifícios colapsavam com um golpe da sua longa cauda serrilhada, e depois da sua passagem tudo o que restava eram ruínas carbonizadas. Sobrevoou indolentemente a cidade em chamas, apreciando o resultado do seu ataque fulminante. Havia uma qualidade felina nos seus movimentos apesar do corpo de réptil coberto de escamas impenetráveis, como uma couraça de placas de ferro incandescente. Aterrou nos destroços, recolhendo as asas. As suas garras curvas e tão compridas como lanças procuraram apoio numa estrutura de metais retorcidos e calcinados e a cabeça sobre o longo pescoço flexível rodou num movimento lento e ponderoso, na minha direcção. 
     Nunca se deve olhar directamente para os olhos de um dragão. Olhos grandes como cabeças humanas, de pupilas verticais como as de um gato, um olhar langoroso, insondável, antigo, calculista, cheio de malícia e astúcia velha como os séculos. Hipnotiza-nos, paralisa-nos, enreda-nos em teias sedutoras e mortais.
     Ouvi a sua voz na minha cabeça, um murmúrio nos meus pensamentos. 
      "Aqui me tens", disse ele. "E agora, que faço contigo?"    




Sem comentários:

Enviar um comentário